
Apaixonado por futebol, morador de Areia Preta e um dos seis filhos de Maria de Deus Marinho e Pedro Tomás Filho. Falando assim, nem parece que é a descrição de um dos maiores craques do futebol potiguar, sendo o melhor lateral-esquerdo do mundo na Copa de 74. Francisco das Chagas Marinho, o Marinho Chagas, 56 anos, é um dos maiores ídolos do ABC Futebol Clube. Em entrevista ao Dez na Rede, ele fala sobre as emoções na carreira de jogador, a chegada à seleção brasileira e conta como foi a saída do “Mais Querido”.
Uma boa lembrança no início da carreira?
Lembro bem do sargento da Marinha Silvério, que me viu batendo pelada e quis me levar pra jogar no Riachuelo. Mas meus irmãos não deixavam, não queriam deixar. Aí eu insisti, insisti, até que eles deixaram. O treinador do Riachuelo falou para os meus irmãos: "Deixa o menino jogar. Esse menino tem futuro, vai ser um bom jogador."
É verdade que seu passe foi trocado por material esportivo?
Vim para o ABC em 1970. Fui trocado por uma partida de futebol, mas como choveu no dia, fui negociado por 50 pares de chuteira e camisas. Foi o que o ABC pagou: chuteira e material esportivo.
E a “Bomba do Nordeste”?
Teve um jogo entre Náutico e Esporte Clube de Recife. Atuando pelo Timbu, eu fiz logo dois gols. Eu fazia muito gol, fazia 2, 3, 4... Todo jogo eu fazia gol. Nesse dia, eu fiz um gol do meio-campo. O goleiro era Betinho na época. Eu dei um cacete, do meio de campo. Com esse chute e pela força que batia na bola o pessoal começou a me chamar de "a bomba do Nordeste".
Houve pressão para chegar à Seleção Brasileira?
Atuando pelo Botafogo, teve um jogo inesquecível contra o Flamengo, em 1973. O Botafogo ganhou e eu participei de quatro gols, e isso ficou na história. Joguei demais nessa tarde. Aí começou a pressão: "Convoca esse cara!" O técnico do Fla era Zagallo, também da seleção. E fui convocado, com Marco Antonio sendo o titular. Aí viajamos, fomos para a Europa. Ganhei uma chance na estréia na Suécia, em Estocolmo, mas perdemos de 1 a 0. E quando eu voltei da seleção, retornei à reserva. Mas houve um jogo da seleção, no Maracanã, contra a Tchecoslováquia, em que o Marco Antonio estava machucado. Zagallo mandou eu entrar em campo, e, aos 44 minutos do segundo tempo, eu fiz o gol da vitória do Brasil - e tinham 200 mil pessoas no Maracanã. Aí garanti minha vaga em definitivo.
Por que você não valorizou tanto a escolha de melhor lateral em 74?
Eu nunca botei na cabeça a fama. A imprensa vinha e me dizia: Marinho você está sendo considerado o melhor do mundo. Eu não dei tanta importância. Hoje, com 56 anos, eu sei o valor da escolha. Na época, eu não sabia a repercussão que isso ia ter para o resto da minha vida.
Foi difícil atuar pelo São Paulo contra o Botafogo?
Em 1982, quando o Botafogo perdeu para o São Paulo, ganhamos por 3 a 2. Naquele jogo, eu fui profissional, mas eu não vibrei. Fui para casa triste.
O que lhe levou a deixar o juniores do ABC?
Até hoje, eu não fui contratado pelo ABC como técnico. O Suassuna e o Judas Tadeu não me contrataram. Eles me deram um salário de R$ 1.000 por mês, que isso pra mim não é bom, nem ruim. Eu queria trabalhar como eu trabalhei, como eu ajudei o ABC, dei bola para o ABC. Fiz um bom trabalho na parte de juniores. Judas Tadeu estava empolgado com aquele treinador que deixou o ABC na mão, que foi para o América de Minas Gerais. Ele deixou o ABC, depois de um ano volta, então ninguém sabe, né, quem é o mau caráter: é o treinador ou é o presidente do ABC? Tem que tirar esses diretores que só querem botar os filhos dos papais.